Meu mundo acontece às 04:00hrs da manhã.
Pra quem me conhece sabe que meu dia começa às 04 da manhã, que é quando eu levanto pra poder chegar a tempo no trabalho, e é esse o momento que eu tenho pra ver as pessoas na minha cidade, todas aquelas que pegam o ônibus para Santo Amaro às 04:20. Mas hoje foi diferente, primeiro por que eu me atrasei. Me atrasar não é uma coisa que aconteça com frequencia (uma vez que eu abro o salão onde eu trabalho, não é ideal que eu chegue atrasa, nem mesmo por alguns minutos). Mas hoje eu não só me atrasei como encontrei com uma pessoa do meu passado que a muito não via por aqui.
Eu tinha uma amiga no colégio, não era minha melhor amiga, mas éramos muito próximas. Então eu achava. Por que sim, na primeira ocasião, ela me passou a perna e deixou outra amiga minha, essa sim era das melhores (ou então eu achava), com tanta raiva da minha pessoa (que eu admito não tinha feito porra nenhuma pra merecer isso) que ela parou de falar comigo. Assim, do nada. E eu encontro hoje, às 04:30 da manhã, no ponto de ônibus, no frio desgraçado que faz de madrugada, esse individuo que fez uma das minhas melhores amigas se virar contra mim.
Um tempo atrás nós reparamos essa situação. Essa menina (que tem pelo menos uns 3 anos que parei de chamar de amiga) engravidou quando nós ainda estávamos no último ano do colégio e eu achei que essa era a hora, não de fazer as pazes, mas de acertar as contas, acabar com a mágoa que era tão grande dentro de mim. Não nos tornamos amigas de novo... nunca fomos amigas de verdade mesmo. Mas agora eu conseguia passar por ela na rua e não ficar pensando em maneiras de jogá-la na frente de um carro em movimento. Sim, eu tive pensamentos assim. Não sou uma pessoa legal?
Mas deixe eu explicar. Essa pessoa não metirou só uma amiga (sorte que eu tinha duas amigas muito importantes na minha vida e ela só conseguiu fazer a cabeça de uma delas, a outra está comigo até hoje), me tirou toda uma esfera de colegas e familias que eu adorava. E isso tudo em uma das piores fazes da minha vida, quando tudo estava indo por água a baixo. Tinha acabado de perder pessoas queridas, acabado de mudar de colégio, a vida em casa estava complicada... tudo acontecendo ao mesmo tempo.
E hoje, quando eu cheguei no ponto de ônibus e ela estava lá, com a irmã gravida, indo ao médico, ela veio falar comigo. Não que isso seja errado. A maneira como ela veio falar comigo é que foi estranha. Como se fossemos amigas. Como se todo esse tempo que se passou tivesse apagado tudo aquilo e nós pudessemos continuar de onde tinhamos parado, como se tivesse algo para se continuar ali.
O melhor de tudo isso é que eu percebi que ela estava certa. Já faz muito tempo que isso aconteceu e não existe mais rancor da minha parte. Não mesmo. Ainda tenho vontade ás vezes de ligar pra minha outra amiga (a que eu achei que era minha amiga mesmo) só pra dar um oi, perguntar da mãe dela, ver se está tudo bem? Dá. Muita vontade, na verdade, principalmente no dia do aniversário dela (que é o mesmo dia do aniversário do meu primo, então eu nunca esqueço). Mas isso ainda me encomoda? Não mais.
Falando com ela hoje de manhã, mesmo com sono, eu percebi que ela não mudou nada. Os trejeitos com as mãos, a maneira de falar, o sorrisinho no final da piadinah que ela nunca entende, é tudo igual. Ela é exatamente a mesma pessoa que ela era a quase cinco anos atrás. E eu posso dizer com todas as letras que eu não sou a mesma pessoa. Eu mudei muito, eu gosto de pensar que eu evolui muito também. Meus jeitos, meu falar, todos eles estão diferentes. Minha mente está completamente diferente da mente daquela menina que não sabia o que fazer com suas próprias amizades.
Até a conversa dela ainda era a mesma. Sabe aquelas pessoas que você sabe que amadureceu mas quando encontra alguém do passado se torna um bruto pé no saco por que parece que volta áquela fase do colégio? Então, ela é isso.
"Anda vendo o pessoal do colégio, Adara?"
"Não não. Não fico muito aqui na cidade. Um ou outro eu encontro ainda, mas é pouco. e vc?"
"Ai, eu ainda ando com as meninas (as 'meninas' aqui são as meninas que eram minhas amigas e viraram as costas pra mim). Lembra quando fulano ficou com ciclano?"
"Lembro... faz tempo né?"
"Nossa, eu lembro de tudo daquela época.. estava falando com..."
E assim foi durante todos os 10 minutos que nós ficamos no ponto esperando o ônibus. Ela falou de tudo aquilo que eu já sabia, e eu não conseguia jogar uma conversa nova na história, eu não consegui nem perguntar se o filho dela estava bem ou não. Ela queria falar do passado e eu, pelo menos, do presente.
Sabe quando você se sente superior? Hee, eu me senti assim. Não por eu não ficar falando de quem pegou quem no colégio. Eu adoro papinhos assim pra falar a verdade, a gente semrpe lembra de umas coisas zuadas demais nessas conversas. Mas eu percebi que o mundo dela ainda é esse, e o meu, graças ao bom senhor das séries de tv e do cinema, não é. E não é a muito tempo! Eu percebi que eu mudei, pra melhor espero, e que as pessoas ao meu redor, aquelas que importam, mudaram também. Mudamos todos e estamos conseguindo mudar e estarmos juntos ao mesmo tempo e isso, pra mim, é o mais importante.
Essa cidada... por mais que eu a ame, não é pra mim mais. Se eu não tinha certeza disso antes eu tenho agora. O que eu tive aqui foi muito bom, uma infância e adolescência maravilhosas. Mas está na hora de realmente cortar o cordão umbilical e ir caçar meu rumo nesse mundão de Deus.
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Isso me lembra aquele episódio de Friends (sempre!) em que a Monica sai com o "Chip from High School"... =-)
ResponderExcluirEssa cidade faz parte de quem você é, você é a pessoa maravilhosa que é por causa dela... E a cidade sempre estará aí, como um refúgio pra vc... É isso que mais importa...